Computo, Logo Existo

É um fim de tarde chuvoso, e para poupar os meus olhos das radiações de um monitor decidi vir escrever para o café. Não disponho de um computador portátil e, mesmo que pudesse utilizar um, nada substitui o prazer de escrever sobre papel. Existe portanto um senão: Inevitavelmente terei que copiar o texto no computador, uma vez que é para ser publicado na Internet.

A minha caligrafia põe qualquer tipo de reconhecimento de caracteres completamente fora de questão. E sou daquelas pessoas que acha o reconhecimento de voz um 'gizmo' sem qualquer tipo de utilidade prática. Lembro-me entretanto que tenho de enviar um e-mail a Fulano. Mesmo que o meu telemóvel fosse um topo de gama, não tenho bateria, o que encerra a questão.

Mas... e se o meu cérebro pudesse interagir com o computador? E se a minha mente pudesse ser utilizada como um computador em rede?

Daqui a uns anos tal poderá ser possível. Vejamos: o cérebro humano conta com 30 milhões de milhões de neurónios. O equivalente ao neurónio num processador digital é o transistor, e um processador evoluído como o nVidia GeForce, presente em placas gráficas avançadas, conta com cerca de 22 milhões de transistores. Um processador topo-de-gama PentiumIII Xeon da Intel tem 150 milhões. Ambos estão muito longe do cérebro humano, mas temos uma linha de evolução muito rápida desde o Intel 8086 de há 20 anos atrás, que tinha 29 mil transistores.

Observemos outra linha de evolução: Em Junho de 1999 um grupo de cientistas conseguiu construir um pequeno circuito composto por células nervosas de sanguessugas, abrindo o caminho para a criação de 'chips' orgânicos. E para demonstrar aos cépticos que a interacção entre dispositivos electrónicos e organismos pode ser feita, neste mesmo ano um grupo de investigadores conseguiu com sucesso inserir um 'chip' num gato ligado a eléctrodos que interceptavam os impulsos eléctricos provenientes da retina do animal. Parece uma experiência horrível, mas de facto os investigadores conseguiram descodificar estes impulsos e ver num ecrã exactamente aquilo que o gato via. E que dizer do famoso cientista britânico Kevin Warwick que pretende implantar em si próprio um 'chip' que irá tirar ao cérebro o controlo sobre um dos seus braços?

Interceptando as referidas linhas de evolução é possível dizer que algures no século XXI os 'cyborgs' (organismos cibernéticos) dos filmes de ficção científica serão uma realidade. E não irão gastar pilhas, visto que a energia eléctrica gerada pelo cérebro humano é suficiente para manter os dispositivos que forem criados a funcionar. Será possível conceber uma espécie de 'telemóvel orgânico' que fará parte integrante do nosso cérebro. E se o Homem já começa a assumir o papel de guardião da sua própria evolução, através da engenharia genética, poderá começar a ter um papel muito activo nesta, ao inventar novos orgãos, funções e sentidos em si próprio. De facto, podemos dizer que ter um telemóvel implantado no cérebro significa ter poderes telepáticos.

Tudo isto trará os mais graves e complexos problemas éticos e filosóficos com que a raça humana alguma vez se deparou. Será que ter as mentes ligadas em rede é uma forma de libertação ou uma perda total de identidade que poderá tornar a Humanidade numa entidade única colectiva semelhante a uma colónia de formigas? Todos estes problemas devem ser discutidos e reflectidos desde já para impedir o Homem de estar sujeito a uma ciência indesejável. Será a esquizofrenia um bug? E como irá a Microsoft distribuir 'patches' para o cérebro?

 

 

Este texto é © Eduardo Sousa 1999.
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Última actualização: 22 de Janeiro de 2001